Aug 18, 2022
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A Carta de 22

Dia após dia ficam maiores os eventos do 11 de agosto de 2022. As duas Cartas, lidas na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, marcaram uma renovada força da Democracia. A frase de Victor Hugo poderia bem resumir o ocorrido: “Nada é mais poderoso do que uma ideia que chegou na hora certa”.

Os eventos daquele dia nasceram do desejo de um grupo de antigos alunos, em busca de homenagear aqueles que, em 1977, assinaram a Carta aos Brasileiros. Naquela ocasião, o querido professor Goffredo da Silva Telles —no meio da ditatura militar— proclamava a ilegitimidade do regime e defendia como único caminho para o país uma Constituinte que trouxesse um verdadeiro Estado de Direito.

No mesmo momento em que aquele ato de coragem estava perto de completar 45 anos, o Pacto Democrático de 1988 estava sendo atacado em diversas frentes: de questionamentos do processo eleitoral até defesas abertas de medidas antidemocráticas. Com isso, um grupo reduzido (de seis pessoas) começaram trabalhar fazendo um manifesto e procurando as primeiras adesões. No início, se pensava em algo como duzentas ou trezentas assinaturas.

Quando a direção da Faculdade foi procurada para que a ideia fosse exposta, houve uma surpresa: ela própria estava articulando com a Fiesp, Febraban e entidades sindicais um outro manifesto em defesa da democracia. Pronto. Foram juntados os dois desejos e o manifesto da Faculdade com as entidades seria lido no dia 11 às 10h no Salão Nobre e, no mesmo dia, às 11:30h —desta feita no Pátio, como em 77— seria lida a Carta às brasileiras e aos brasileiros. Depois deste contato inicial, foram quinze dias de intenso trabalho.

A Carta, colocada na internet, recebeu um número nunca imaginado de adesões: advogados, professores, artistas, estudantes e trabalhadores de todos os campos causaram um grande boom, antes mesmo do dia 11. As duas Cartas dominaram os debates por duas semanas. A ideia de defesa do regime democrático uniu pessoas de grupos e posições políticas diversas. Vídeos de apoio e depoimentos começaram a surgir de todo o lado. Pessoas notáveis aderiam em um ritmo que era difícil acompanhar. Antes da leitura, a carta já tinha quase um milhão de assinaturas.

Nas duas semanas que antecederam o 11 de agosto, fatos de grande importância ocorreram no país, a exemplo das convenções partidárias que escolhiam seus candidatos para eleição geral, a aprovação de pacotes de grande repercussão social e até de um evento de Ministros da Defesa de todo o Continente, que foi realizado em Brasília. Porém, no meio de tudo isso, a grande notícia era a movimentação para os atos de 11 de agosto.

Aquela data foi uma grande demonstração da força da democracia. Num dia chuvoso e no meio da semana a Faculdade estava lotada —dentro e fora. Os atos foram televisionados na íntegra por várias emissoras de TV e também teve grande cobertura de veículos da internet e, numa medida nunca esperada, e talvez inédita, a leitura daquela mesma Carta foi repetida em solenidades locais em centenas de cidades por todo o país, com a organização de Faculdades, Centros Acadêmicos, Sindicatos etc.

A homenagem à Carta de 77 e aos seus signatários, bem como a defesa do regime democrático, ganhou uma marca poucas vezes vista. Sim! Somente ideias corretas, nos momentos corretos, são capazes de promover uma força mobilizadora e tão positivamente simbólica como aquela do 11 de agosto de 22.

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