Mar 23, 2017
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Parreira: “é consagrador ganhar um título pelo Corinthians”

Silvio Barsetti- Terra

O currículo de Carlos Alberto Parreira destaca o título obtido pelo Brasil na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, visitas a mais de 130 países como profissional do futebol, várias passagens por outras seleções, um Brasileiro pelo Fluminense e uma temporada brilhante pelo Corinthians. Foi há 15 anos, quando levou o clube paulista a dois títulos importantes conquistados na mesma semana – o Rio-São Paulo e a Copa do Brasil.

Nesta entrevista exclusiva ao Terra , o técnico recorda-se daquela temporada, na qual o Timão também chegou à final do Brasileiro, mas não superou o Santos de Diego e Robinho.

Carlos Alberto Parreira teve uma passagem vitoriosa no Corinthians em 2002, quando conquistou os títulos do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil
Carlos Alberto Parreira teve uma passagem vitoriosa no Corinthians em 2002, quando conquistou os títulos do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil

Parreira conta como armou aquele time, equilibrado e ofensivo, com Gil e Deivid se destacando no ataque, Ricardinho ditando o ritmo no meio e Dida garantindo vitórias e empates com a ponta dos dedos.

Ricardinho e Dida saíram depois dos títulos, transferidos para o São Paulo e Milan respectivamente, e não disputaram o Brasileiro. E o Corinthians não conseguiu substitutos à altura dos dois, sofrendo com os desfalques.

Mas os percalços em 2002 foram superados por momentos de alegria que se repetiram várias vezes e deixaram a torcida em estado de euforia. Foi assim, por exemplo, nos jogos decisivos contra o São Paulo, na final da Copa do Brasil contra o Brasiliense, na goleada incontestável ( 6 a 2) sobre o Atlético-MG pelo Brasileiro. Esses exemplos são citados na entrevista. Mas há outros que celebram toda aquela jornada.

Terra – Quinze anos depois, qual o sentimento e as lembranças que ficaram daquela temporada vitoriosa como técnico do Corinthians?

Parreira – O Corinthians é um clube com uma demanda igual a da Seleção Brasileira. A pressão é muito grande, com cobrança da torcida, da imprensa. De um modo geral, há a exigência permanente por resultados. O ano de 2002 foi marcante e maravilhoso. E tudo aquilo teve sua razão de ser. A começar pelo trabalho na pré-temporada, que foi fundamental para conhecer os jogadores, estabelecer as prioridades. O grupo era muito bom e se doou. Havia também uma unidade entre os dirigentes, com Edgar Simões (coordenador de futebol), Roque Citadini (vice de futebol) e o presidente Alberto Dualib dando o apoio que vinha de cima.

O título daquele Rio-São Paulo ganha em importância pelo fato de a competição não ter sido mais realizada desde então?

Não sei exatamente. Mas o torneio foi muito difícil com os 16 melhores clubes dos dois Estados. Ou seja, enfrentamos e deixamos para trás os quatro grandes do Rio e os nossos tradicionais rivais caseiros. Isso valoriza o título. Até hoje, tem muito corintiano que passa por mim na rua e pede: ‘Parreira, volta pro Corinthians’. Isso porque aquela campanha ficou marcada na memória deles.

E o que você responde pra eles?

Agradeço e digo que não dá mais, já parei faz tempo. Meu último trabalho como técnico foi com a seleção da África do Sul, na Copa do Mundo de 2010, e na despedida vencemos a França por 2 a 1.

Carlos Alberto Parreira recordou com saudosismo e muitos detalhes as conquistas dos títulos da Copa do Brasil e do Torneio Rio-São Paulo pelo Corinthians na temporada 2002
Carlos Alberto Parreira recordou com saudosismo e muitos detalhes as conquistas dos títulos da Copa do Brasil e do Torneio Rio-São Paulo pelo Corinthians na temporada 2002

Foto: Silvio Barsetti / Especial para Terra

Na primeira partida da final do Rio-São Paulo de 2002, o Corinthians conseguiu uma virada histórica sobre o São Paulo, vencendo por 3 a 2. Lembra de algum bastidor daquele jogo?

Sim, sempre. Nosso time foi muito apático no primeiro tempo, irreconhecível. Levamos 1 a 0 e no intervalo, enquanto eu atravessava o gramado do Morumbi até o vestiário, um repórter me perguntou: ‘Parreira, o que está faltando ao time?’ Eu, no ato, respondi: ‘Falta alegria.’ E foi isso que eu disse no vestiário. ‘Olha, perder ou ganhar faz parte do jogo. Agora o que não pode é o Corinthians perder como está perdendo. Sem vontade, sem disposição, sem vibração. Vocês estão vendo o São Paulo jogar. Vamos correr.’ Não falei nada de tática. O que se viu no segundo tempo foi outro time, vibrante o tempo todo. Fizemos 3 a 1, numa apresentação irretocável; o São Paulo diminuiu depois. Na segunda partida, num jogo também muito disputado, conseguimos o título com um empate (1 a 1).

É a favor da volta do Rio-São Paulo?

É uma competição bastante interessante, mas a gente tem de ser realista. Não há espaço no nosso calendário, aumentaria a exposição dos jogadores. Veja por exemplo o que acontece agora. Temos uma Libertadores que se estende pelo ano todo, a Sul-Americana, a Primeira Liga e por aí vai. É muita coisa e o mais impressionante é que já tem técnico poupando o time no mês de março, já escalando os reservas. Isso é prova de que tem alguma coisa errada. Não estou criticando ninguém, até porque se eu estivesse em algum clube poderia estar fazendo o mesmo. Mas isso é reflexo de um problema sério.

Reflexo de um calendário inadequado?

Sim, a questão do calendário do futebol brasileiro é definitivamente insolúvel. Não tem jeito. É uma discussão que já dura alguns anos e vai prosseguir assim. Há os que defendem que se copie o modelo europeu. Mas não tem como. Aqui temos o Natal, o carnaval, as férias escolares, o verão. Além disso, o Brasil não tem dimensões pequenas como a Alemanha. Somos quase um continente. Na CBF, defendi com Ricardo Rocha e Carlos Alberto Torres que os Estaduais tivessem 12 datas. Mas são 19 e aí entram questões políticas de vários Estados, atreladas também aos interesses de transmissão dos jogos pela TV. Isso acaba prejudicando o aspecto técnico, para o qual seria conveniente que as competições fossem enxutas, com tempo para a preparação das equipes, intervalos mais longos entre os jogos. Os Estaduais poderiam começar para os pequenos em setembro, outubro, funcionando como uma seletiva para a fase principal, com os times mais expressivos.

Carlos Alberto Parreira, ao lado do zagueiro Batata, comanda treino do Corinthians na temporada de 2002
Carlos Alberto Parreira, ao lado do zagueiro Batata, comanda treino do Corinthians na temporada de 2002

Foto: Gazeta Press

Na Copa do Brasil daquele ano histórico, o Corinthians passou sufoco contra o Paraná, pelas quartas de final …

Exatamente. O técnico do Paraná era o querido Caio Junior (vítima do acidente de avião com o time da Chapecoense, em novembro, na Colômbia). Na primeira partida, estávamos ganhando por 3 a 0 no Pacaembu e criando oportunidades para fazer o quarto gol e liquidar a fatura. Mas aí levamos um gol e aquilo me tirou o sono. Não dormi realmente na noite do jogo. Fui para casa revoltado. Sabia que aquele gol podia arrebentar a gente no outro jogo. O Paraná era um time muito bem montado, o Caio fazia um excelente trabalho. E o que houve? Lá, na casa deles, abriram 1 a 0 e se fizessem o segundo se classificariam. Foi um sufoco, com o Dida fazendo defesas milagrosas, a bola batendo na trave. Mas passamos.

Depois de superar o São Paulo na semifinal, o time viveu outro drama, contra o Brasiliense, na final. Como foi a decisão?

O Brasiliense tinha eliminado o Fluminense e o Atlético-MG em quatro partidas. A equipe não chegou à final de graça, por acaso. E havia uma situação curiosa. O que se dizia na época era que o Luís Estevão (ex-senador cassado por falta de decoro parlamentar e então presidente do clube do DF) deixava os jogadores do Brasiliense em estado de graça, supermotivados, porque pagava os bichos (premiação por vitória) no vestiário. Os caras se matavam em campo, e o bicho era maior que o salário. Era uma motivação sadia, nada contra. Vencemos o primeiro jogo por 2 a 1 com uma polêmica danada no segundo gol – Gil teria feito falta num defensor adversário antes de rolar a bola para Deivid marcar. Na última partida, levaram a gente para um campo esburacado, em Taguatinga, sem nenhuma condição. O Brasiliense fez 1 a 0 e a pressão ficou enorme. Lembro do alívio nosso no banco de reservas na hora em que Leandro cruzou da esquerda e o Deivid empatou. O 1 a 1 nos deu o título, muito celebrado.

Os dois títulos expressivos vieram num intervalo de menos de quatro dias. O do Rio-São Paulo, em 12 de maio, e o da Copa do Brasil, no dia 15. Pode-se dizer que foi uma semana intensa …

Eu lembro que o presidente Dualib passou por mim e me perguntou: “Parreira, o que você quer mais? Dois títulos numa semana está de bom tamanho?” Claro que foi uma semana totalmente atípica para os jogadores, dirigentes, torcida, pra mim e meus colegas da comissão técnica. Inesquecível. E claro também que uma derrota para o Brasiliense nos arranharia. Afinal, a obrigação ali era do Corinthians.

As duas conquistas também foram marcantes por duelos à parte entre Corinthians e São Paulo, não?

Sim, foram quatro desses clássicos em menos de 20 dias. E o São Paulo tinha um belo time, com um ataque sensacional, formado por França, Kaká e Reinaldo, e ainda com Rogério Ceni, Belletti, o Júlio Baptista estourando. Por outro lado, nosso time era também muito bom, com Dida, Ricardinho, Vampeta, Kleber, Gil.

Você optava por um time ofensivo. Por quê?

Aquele time do Corinthians foi um marco na minha carreira. Só jogávamos com um volante, o Fabrício, que na verdade era meia. E tudo funcionava muito bem. Não tinha porque mudar. O Vampeta atuava como segundo ou terceiro homem do setor e o Ricardinho completava o meio. Era uma equipe técnica, sem um camisa 9. O Gil atuava como quarto homem pela esquerda e o Deivid entrava que nem um facão como fazia Jairzinho na Copa de 70. O Leandro jogava solto atrás do Deivid, girando, entrava na área, voltava, ia pra esquerda, ia pra direita, compunha o meio quando a gente perdia a bola. Na hora que a gente tinha o domínio, ele tinha liberdade e se juntava aos que vinham de trás – Ricardinho, Vampeta, Rogério. Era um desenho tático muito interessante. O Corinthians, eu costumava dizer, possuía o melhor lado esquerdo do futebol mundial, com Ricardinho, Gil e o Kleber. Eles desequilibravam, dava prazer vê-los jogar. O técnico monta um time de acordo com o material que tem à disposição. A formação foi ofensiva muito em razão disso.

Para o Brasileiro, o Corinthians perdeu Dida e Ricardinho. Como foi esse baque?

Muito complicado. Não conseguimos substituir o Ricardinho, no mesmo nível. O time sem esses dois foi praticamente desfeito no início do Brasileiro. O Doni veio do Botafogo-SP e não era ainda o goleiro que depois se consagrou. Ainda estava meio inseguro. Para o lugar do Ricardinho, efetivamos o Renato, um bom jogador, que chutava bem de fora da área, mas não tinha o senso de organização e nem a técnica do Ricardinho.

A campanha no Brasileiro teve muitos altos e alguns baixos, com derrotas elásticas. O que houve?

Levamos sim umas bordoadas no Brasileiro. Uma delas veio depois de um jogo em que vencemos o Paysandu, em Belém. Isso foi numa quarta-feira de noite e deixamos o Norte direto para Porto Alegre, onde o adversário era o Grêmio no fim de semana. Durante a viagem, perdemos uns três ou quatro jogadores, gripados. Fomos então obrigados a mudar bastante o time. E o Grêmio nos derrotou por 4 a 0. Mas, na rodada seguinte, vencemos o Goiás por 3 a 0. Também houve um tropeço contra o Atlético-PR na nossa casa, num sábado. Perdemos por 3 a 0, num jogo igual o tempo todo, mas no qual o Atlético soube aproveitar os contra-ataques. Saí dessa partida bem chateado, em silêncio. Aí, eu me lembro, o Roque Citadini (vice de futebol) notou a minha expressão de abatimento, a gente quase não perdia, e me ligou pra casa às 10 horas da manhã do domingo. “Oi, Parreira, como você está? Tudo bem? Não liga não. Isso acontece. Hoje é dia de lamber as feridas.”

Antes da final contra o Santos, qual o jogo daquele Brasileiro que mais lhe marcou?

Foi a nossa vitória épica por 6 a 2 sobre o Atlético-MG, no Mineirão, pelas quartas de final, com uma atuação muito boa do Deivid, que fez quatro gols, um deles um golaço de fora da área. Estádio cheio, o Atlético muito credenciado a chegar à disputa do título. Foi sensacional. Ninguém ganha impunemente do Atlético-MG por 6 a 2 numa fase final de Brasileiro. Também foi de arrepiar a semifinal com o Fluminense. Sofremos uma derrota no primeiro jogo por 1 a 0 que tivemos de reverter em casa, numa partida também dramática e que ganhamos por 3 a 2.

E não havia como parar Diego e Robinho no ataque do Santos?

Era uma tarefa muito difícil. Eles estavam numa fase exuberante. Mas não eram somente os dois. O Santos, como um todo, cresceu de uma forma impressionante na fase final do Brasileiro, vinha numa ascendente. Perdemos a primeira partida por 2 a 0 e eu senti um golpe profundo quando levamos o segundo gol, numa saída errada de bola do Fabrício. Aquele gol foi mortal, o time sentiu muito. Na última partida, viramos para 2 a 1 e estávamos a um gol do título, pressionando, o Fábio Costa defendendo tudo, a torcida cantando o hino na arquibancada do Morumbi. Mas o Santos, com todo o mérito, acabou fazendo mais dois gols e venceu por 3 a 2.

Você disse em 2002 que era diferente ganhar um título pelo Corinthians. Diferente por quê?

É algo muito especial, uma experiência até difícil de explicar. A torcida vibra muito, a fiel é encantadora, faz uma festa única. Diferente nesse sentido, por causa de toda a emoção que gira em torno. É consagrador e inesquecível. Isso vale para o técnico e, claro, para os jogadores e todos os envolvidos no trabalho.

 

 

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